Quando eu era criança

Fui uma criança séria e rígida comigo mesma. Mas dentro de mim, o mundo era grande. Achava muitas coisas, e não pensava muito nessa de ser algo, pra falar a verdade. O que eu achava mais incrível mesmo era crescer, ver o tempo passar. Era até ansiosa por isso. Com 6, ficava maravilhada na possibilidade em ter 10.

Passava o tempo tentando descobrir como tudo funcionava. Achava que as crianças nasciam por que os adultos colocavam um anel no dedo especial, e para ter outra, era só recolocar o anel. O Brasil tinha sido descoberto de helicóptero e imaginava as primeiras cenas iguais às do Globo Repórter. Antes da tv colorida o mundo era preto e branco. Fazia coreografias com os desenhos do tapete da sala, imaginava um mundo com distâncias mais curtas, onde tudo era possível de se fazer a pé, fazia planos pra entrar na nave da Xuxa e ficar escondida até que decolasse. Quase joguei uma pedra pra quebrar a tv e entrar nela. Em casa tinha um porão, e eu achava que meu avô, já falecido, morava lá. Mas o medo não deixou ir visitá-lo. Achava que o dinheiro não deveria existir, bastava trocar as coisas. Gostava de passear no sítio com meu pai, imitando seu caminhar. Esperava ansiosamente pra aprender a escrever. Queria ir pra escola logo. Achava que amanhã era ano que vem (o ano em que finalmente iria pra escola). Gostava de fazer minhas irmãs rirem, deixava bilhetes pra elas debaixo da porta do banheiro, mandava cartas para outras pessoas, fiz um baralho todo pro meu pai.

Aí, teve um dia que eu comecei a cortar tecido, costurar, inventar jeitos pra customizar camiseta e fazer pros amigos. Escrevia poemas engraçados, pintava e fazia colagem nas paredes (Obrigada, mãe!). Se o comum no final do ano da escola era levar uma camiseta pra todo mundo escrever, pois eu levava uma calça jeans e usava ela no ano seguinte, com meias descombinando. Um dia, escrevi nomes de várias grandes metrópoles na parede do meu quarto. Sonhava em ir pro mundo, aprender e ver coisas novas, mas ainda não sabia o que levaria comigo. Eu não sabia o que eu sabia fazer bem. E não dava importância à tudo isso que já fazia. Mas eu fui buscar.

Quando eu cheguei na faculdade de moda e comecei a fazer os sketchs, minhas irmãs diziam que meus desenhos pareciam bonecas infláveis. Pior que era verdade.

Nas minhas buscas, fui em uma vidente. Ela dizia que eu tinha que trabalhar com as mãos. Como assim? Apostar nas mãos que desenham bonecas infláveis? Não botei nenhuma fé e segui viagem, sempre me sentindo perdida. Não conseguia me desvendar. Tudo era muito confuso internamente.

Mas o tempo passou e quando olhei em volta, já estava cercada de trabalhos manuais. (Danada essa vidente, né!? Posso passar o telefone! rsrs…)

Se eu olhasse pra minha história do jeito que eu contei, o trajeto ia ser mais simples, mas não teria aprendido tanto na prática desse buscar. Não teria entendido que não importa o destino nem a velocidade e sim a trajetória e a direção, e que quanto mais a gente caminha com passos corajosos, mais os olhos se acostumam com a neblina e a gente vai começando a enxergar através dela.

Foto encontrada em: zigouis.blogspot.fr

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